Dependência Emocional: Como Vínculos na Infância Moldam Relacionamentos Adultos
- Renan Giusti
- há 4 dias
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É comum que uma pessoa, mesmo adulta, se perceba repetindo padrões afetivos que a fazem sofrer. Relações em que se entrega demais, aceita pouco, sente medo constante de ser rejeitada ou acredita que só vale a pena quando é amada pelo outro. Esses sentimentos, muitas vezes, não nascem no presente — mas são heranças emocionais da infância, marcas deixadas pelas primeiras relações.
Na psicanálise, entendemos que o sujeito se constitui na relação com o outro. E os primeiros “outros” que encontramos são aqueles que cuidam de nós — geralmente, os pais ou cuidadores. É nessa fase inicial, ainda muito primitiva, que o bebê experimenta o que é ser acolhido, atendido, frustrado ou ignorado. Esses encontros — ou faltas deles — criam uma base emocional profunda que influencia como esse sujeito se sentirá no mundo: seguro, desejado, digno de amor... ou não.
Quando esses vínculos iniciais são frágeis, incoerentes ou marcados por abandono, a criança pode desenvolver uma sensação interna de que precisa fazer algo para merecer o amor. Assim, nasce uma ideia inconsciente de que o afeto é condicionado: “só serei amado se eu agradar”, “preciso estar sempre disponível”, “não posso incomodar”. Isso é o que Winnicott chamava de falso self — uma construção que serve para sobreviver, mas que afasta o sujeito de quem ele realmente é.
Mais tarde, na vida adulta, essas marcas retornam. Relações afetivas passam a ser o campo onde se tenta, inconscientemente, reparar o passado. A dependência emocional se instala como uma tentativa de encontrar, no outro, aquilo que faltou nos primeiros vínculos: estabilidade, cuidado, atenção constante, segurança. Mas o problema é que nenhum parceiro amoroso pode ocupar o lugar de uma mãe ou de um pai. O desejo de fusão com o outro se choca com a realidade da separação e da diferença — e isso gera angústia, frustração, ciúmes, insegurança.
A psicanálise não busca culpar os pais ou idealizar infâncias perfeitas. Mas ajuda o sujeito a olhar para sua história e compreender como suas experiências afetivas precoces ainda vivem dentro dele. Essa escuta abre a possibilidade de perceber que muitas das exigências colocadas sobre os relacionamentos atuais vêm de uma criança ferida que ainda não foi escutada.
A partir do momento em que o sujeito reconhece isso, ele deixa de esperar que o outro venha preencher todos os vazios. Começa a se responsabilizar por si mesmo, por seus desejos e limites. Passa a entender que relacionar-se não precisa significar abrir mão de si — ao contrário, pode ser um espaço de troca verdadeira, sem dependência, sem medo constante de abandono.
Esse processo não acontece da noite para o dia. Requer tempo, elaboração, um espaço de fala e escuta — como o oferecido em análise. É ali que os traços deixados pelos vínculos infantis podem ser trazidos à consciência, ressignificados e transformados.
A dependência emocional, então, deixa de ser uma sentença e passa a ser um ponto de partida. Um convite para que o sujeito olhe para sua história, reconheça suas feridas e, a partir disso, construa novas formas de se relacionar. Com o outro, mas principalmente consigo.
Este texto tem caráter informativo e psicoeducativo, não substituindo avaliação ou acompanhamento psicológico individual.
























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